quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MÉNON, por Platão

Boa tarde.
Há já algum tempo que não pegava no nosso amigo Platão. Este livro já o li a semana passada mas entre ler e arranjar cabeça em tempo de aulas para elaborar um texto sobre ele vai um grande salto, peço desculpa se sair muito pobre.
Uma tarde o jovem Ménon aproximou-se de Sócrates porque tinha ouvido que este respodia a qualquer questão fazendo as pessoas desaprender aquilo que tinham aprendido. A sua dúvida é pertinente: o que é a virtude? Contudo, Ménon fica muito espantado quando Sócrates admite nada saber do assunto, ainda que se disponibilizasse a arranjar também uma resposta. Assim, pergunta atrás de pergunta, abordando assuntos aparentemente tão díspares como os valores, a geometria e até a origem da aprendizagem enquanto reconhecimento de memórias de vidas anteriores (lembremo-nos que os gregos tinham essa visão do Universo e da vida, logo por favor não se ponham aqui com fundamentalismos religiosos que esta crença nem é uma religião mas uma filosofia) tanto Ménon como Sócrates e até mesmo um escravo de Ménon vão interligar os vários conhecimentos, de forma a chegar a uma conclusão final.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

REI ÉDIPO, por Sófocles

Do mesmo autor de "Antígona" apresento hoje a tragédia "Rei Édipo" que, de certa forma, vem na precedência da anterior. Se "Antígona" é o suplício da filha de Édipo, condenada pela sociedade por defender a dignidade dos seus irmãos e por ser filha do seu pai que teve uma relação incestuosa com a sua mãe, "Rei Édipo" centra-se no momento derradeiro em que Édipo descobre a verdade: que matou o seu pai biológico sem o saber e que casou com a sua mãe, a rainha Jocasta. Desgostoso com a sua sina, decide cegar-se e errar pelo mundo, exilando-se apenas acompanhado pela sua filha Antígona.
Apesar de se centrar no momento da verdade, esta tragédia insere uma narrativa dentro da principal. Nela ficamos a conhecer as origens deste rei, desde que foi condenado à morte em recém-nascido até ao seu exílio. Mandado matar pela sua mãe, a rainha Jocasta, por um oráculo haver previsto que o recém-nascido mataria o seu pai e casaria com a sua mãe, Édipo é salvo por um pastor que o entrega ao rei de Corinto para que o eduque. Já adulto, tem conhecimento da profecia e, não sabendo que o rei de Corinto não é o seu pai biológico e temendo matá-lo, foge para Tebas; no caminho é surpreendido por uma caravana onde seguia um homem que, por Édipo não haver recuado à sua passagem, mandou que o espacassem. Édipo derrotou os soldados e matou o viajante da caravana, sem saber que se tratava do seu pai biológico. Já na entrada de Tebas é surpreendido por uma esfinge que atemorizava todos os que passassem pela região e que matava aqueles que não respondessem correctamente às suas charadas. Édipo mostrou-se bem sucedido em todas e derrotou o monstro, que se lançou num desfiladeiro. Como prémio pela sua ousadia e visto que o rei havia sido assassinado, Édipo casa-se com a rainha Jocasta, ignorando que se casava com a sua mãe biológica.
"Quem matou Laio?" Esta é a pergunta presente em toda a tragédia, uma vez que os deuses, desgostosos com a relação incestuosa do governante de Tebas, cobrem a cidade com toda a espécie de pragas. A multidão está furiosa e quer matar o assassino de Laio, pois só assim os deuses perdoarão a cidade. Assim, evidência atrás de evidência, memória atrás de memória, Édipo vai acabando por descobrir as suas verdadeiras origens enquanto procura o assassino para responder ao apelo da população. A peça é dotada de um dramatismo crescente, verdadeiramente apoteótico aquando o momento da verdade. Como sempre soube fazer em todas as suas tragédias, Sófocles consegue auferir às personagens características puramente humanas, quer através das reacções, quer através das mentalidades e quer através do discurso, mas sem nunca perder a solenidade, o que, pessoalmente, faz dele o meu dramaturgo grego preferido. Em Sófocles, o ideal tradicional de divinização das personagens e a separação da personagem boa e da personagem má nunca é verificável. Assim, deixo-vos com o conselho de ler esta obra intemporal de uma das mais famosas narrativas clássicas que pretendem mostrar que o homem não consegue fugir ao seu Destino... 

sábado, 29 de outubro de 2011

PENSAMENTOS, por Marco Aurélio

Saudações!
Certamente todos os que lêem este blogue se lembram da primeira e única obra de um autor romano que apresentei, "Anfitrião", de Plauto; com certeza quem leu se lembrará do quão mal impressionada fiquei com o teatro romano e com os seus valores. Contudo, para "limpar" a fama com que os romanos poderão eventualmente ter ficado (embora não deixasse de ser em parte acertada) apresento desta vez um romano com a diferença de que usa a cabeça: o imperador Marco Aurélio. Eis o que apanhei deste livro.
Antes de mais, facto curioso com a capa. A pintura representada é de uma das casas senhoriais de Pompeia, a cidade romana soterrada pelo Vesúvio e representa os senhores da casa, marido e mulher. Agora aquilo que aparentemente ultrapassa a normalidade da realidade da altura: o homem segura um pergaminho mas a mulher segura uma caneta e uma tábua. Tendo em conta que este género de pinturas tinha o hábito de representar características dos senhores da casa, podemos concluir que, contrariamente ao que seria comum, a mulher era tão literata como o marido e tinha a mesma relevância, pois ambos aparecem da mesma altura e com o mesmo destaque... Impressionante...
Agora remetendo-me ao livro. Como todos os estadistas deveriam ter, Marco Aurélio revelou uma grande capacidade: usar a cabeça. Mas, mais importante ainda, não a cabeça de um governante que vê o mundo de cima para baixo, mas também a capacidade de ver a realidade de baixo para cima como o mais comum dos mortais. Conseguiu captar a ambiguidade das coisas sem se deixar influenciar por aquilo que o poder lhe proporcionava. Não é um tirano das ideias. Esta característica, sobretudo por se denotar num estadista enquanto imperador, é de se lhe atirar o chapéu. Homem de uma nobreza de carácter impressionante, inicia o livro com a lista das boas pessoas que o tornaram no que imperador que foi, passando a citar: "De meu avô Vero recolhi lições de cortesia e serenidade; (...) de minha mãe veio o exemplo de piedade e ânimo dadivoso (...); boa lição me deu meu bisavô em não ter frequentado escolas públicas (...); de meu preceptor (...) a desenrascar-me por mim (...); de Diogneto me terá vindo o horror à bagatela (...); de Rústico, o ter concebido a ideia de que o meu carácter precisava de rectidão, disciplina e vigilância a todas as horas (...); de Apolónio aprendi a independência e a decidir-me por mim sem recurso aos dados (...); Sexto deu-me a lição de benevolência e o exemplo de uma família patriarcal (...); de Alexandre o Gramático aprendi o desamor de criticar por criticar (...); de Frontão me veio o ensinamento de quem tinha observado até onde chega a inveja, a duplicidade e a hipocrisia dos tiranos (...); de Alexandre o Platónico aprendi que se não deve dizer muita vez e sem necessidade (...) que estamos muito ocupados e furtarmo-nos assim aos deveres (...); e Catulo, que me ensinou ele? A não sacudir um amigo que se queixa de nós (...); de meu irmão Severo aprendi a amar a família, a amar a verdade, a amar o bem (...); em Máximo se espelhou o domínio de si, a ausência de fogosidade fosse no que fosse (...); em meu pai se revia a mansidão mas também a firmeza inabalável nas decisões estudadas com peso e detenção (...); devo aos deuses ter tido bons avós, excelentes pais, uma boa irmã, bons mestres, bons familiares, parentes e amigos quase todos bons (...)". Este pequeno grande livro está dividido em doze livros mais pequenos, mas que esta edição apresenta na íntegra, totalizando um modesto número de 152 páginas para tão grande obra.
Marco Aurélio, antes de um imperador, foi um homem modesto que viu o mundo e as suas vicissitudes com olhos de águia, pois viram mais longe que os olhos dos seus conterrâneos, devendo por isso ter sido dotado de uma sensibilidade especial... pena que os seus valores não tenham passado para a geração dos seus filhos, sobretudo para Cómodo, o futuro imperador e considerado um dos piores da História; assim, com Marco Aurélio encerrou-se uma linha na história de Roma de estabilidade e prosperidade, conhecida como o tempo d"os cinco bons imperadores".

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

OS PERSAS, por Ésquilo

Três meses se passaram... meu Deus...
Confesso ter estado ausente durante muito tempo; seja porque nas férias não tive propriamente internet, depois quando voltei era o início das aulas e tinha que me organizar... e agora que tudo estabilizou é que vejo como o tempo passou...
Como regresso ao mundo da blogosfera apresento a tragédia "Os Persas" de Ésquilo que, por acaso, já li em Julho mas nunca apresentei, o que é sempre bom, não é... Para mais, devo estar bastante enferrujada, por isso peço desculpa se não me sair tão bem.
Tal como é costume das tragédias de Ésquilo, o importante não é a acção, mas o pathos despoletado pela situação. Seguindo esse preceito, toda esta tragédia não é mais que um lamento fúnebre de Xerxes, rei da Pérsia, ante a derrota dos persas contra os atenienses na batalha de Salamina. O efeito trágico é dado por vários elementos, a começar com o mau presságio sonhado pela rainha e que se cumpre na realidade, seguido do regresso do mensageiro com a notícia da derrota, os lamentos de Xerxes vencido e até à materialização do fantasma de Dário, pai de Xerxes, que torna ao mundo dos vivos para partilhar do desgosto. Todo este seguimento dramático é acompanhado por um coro agonizante que acentua a dor das personagens. A título de curiosidade, sabe-se o próprio Péricles (sim, o grande estadista) era um dos coregos.
"Os Persas" não são uma peça para ser lida, mas mais sentida. Não há acção, apenas emoção; e nela Ésquilo consegue misturar com mestria os sentimentos de tristeza e piedade, de agonia e de desespero, apesar de, a meu ver, a peça ter mais o intento de enaltecimento da nação grega do que propriamente a compaixão ante o povo inimigo vencido (a ver os elogios que a personagem de Xerxes tece aos soldados atenienses)... Basicamente, por muito antagónico que pareça, apesar dos sentimentos de tristeza há uma mistura com sentimentos de orgulho e regozijo ateniense ante os perdedores... Sim, talvez seja um pouco hipócrita; mas enfim, talvez não nos seja uma hipocrisia que, mesmo nos dias de hoje, nos seja desconhecida de todo...
 
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quarta-feira, 20 de julho de 2011

CONTOS GREGOS

Olá! Boa noite!
A seguir às "Fábulas" de Esopo que não são propriamente de Esopo apresento outro livro leve para férias: "Contos gregos", versão de António Sérgio. 
Pelo que li estes "Contos gregos" não são de todo "Contos gregos", mas apenas um. A ver se me explico. A primeira história é, de facto, um conto grego bastante conhecido; contudo, as restantes são temas de mitologia geral ou da "Odisseia", ou seja, não são propriamente contos. Mas isso é um aparte. Indo ao que interessa: efectivamente, é uma leitura bastante interessante. O primeiro conto é simplesmente adorável (já conhecia, mas fiquei muito contente por finalmente o ter num livro) e fiquei a saber a história de Jasão que, perdoem-me a ignorância, nunca me tinha dado ao trabalho de saber na minha infância. Só tenho duas coisas negativas a apontar: a primeira é a maneira como as histórias são narradas. Sei que o objectivo daquela colecção é dar a conhecer algo ao povo e tem que ser acessível a todos, mas achei o vocabulário e as expressões demasiado... vulgares e deselegantes... para os temas em si. A segunda refere-se ao último "conto", que é uma história que acho simplesmente ridícula e inútil de apresentar. Não dá para especificar mais, seria necessário ler a história para perceberem o que digo.
Apesar de tudo, esta é apenas uma opinião e, salvo a última história que, se lerem, quase de certeza que concrdarão comigo, acho ser um livro leve para férias e bastante interessante. Para finalizar (e porque gosto tanto dessa história que tenho que partilhá-la convosco) termino com a minha narração pessoal do primeiro conto do livro, se já conhecem felizes de vós, se não conhecem vale a pena conhecer, a história de Filémon e Báucis.

FILÉMON E BÁUCIS (recontada por Gabriela de Sousa)

Um dia Zeus decidiu visitar a Terra. Vício de divindade absoluta, julgaram uns, cedo passar-lhe-á, afinal nunca se preocupou com os homens, achando-os criaturas inferiores, sem importância e que mais valeria dizimar até. Contudo, aquela teima era mais do que simples cisma, antes era a procura por uma prova de que valeria a pena dizimar aquelas pequenas criaturas desajeitadas de duas pernas e dois braços que germinavam por toda a Terra. Dizimá-los-ia sob o pretexto de acabar com a sua malvadez, pensava. E nisto Zeus começou a arquitectar a melhor forma de o fazer.
Hermes gostava dos humanos. Nada de pessoal, achava apenas uma criação bastante curiosa, afinal não os achava tão pouco inteligentes quanto isso e até tinham as suas peculiaridades que lhes davam interesse. Ofereceu-se, portanto, a ir com Zeus seu pai até à Terra. Contudo, impôs-lhe uma única condição. "Não dizimarás a humanidade", disse-lhe, "se encontrarmos pelo menos duas pessoas honestas." Zeus anuiu. Tomaram assim as suas formas humanas e desceram dos céus, indo embrenhar-se nas ruas confusas e sujas de uma cidade.
Hermes e Zeus vagueavam sem destino na cidade, disfarçados de rudes maltrapilhos sem terra, pois que assim seria mais fácil para Zeus determinar o carácter dos homens. E os seus pensamentos confirmaram-se: por cada casa em que entravam, por cada beco em que andavam, eram corridos quais cães vagabundos que não merecessem pisar o solo no qual caminhavam, como se poluíssem o ar que respiravam. Às tantas uma pedra voou e acertou num braço do deus Hermes, dando a entender que seria melhor saírem da cidade.
Saíram por entre vaias e urros. Sem olharem para trás, tanto Zeus como Hermes se meteram bosque adentro, não cuidando aonde iriam. Até que, ao fundo, avistaram uma casinha modesta. À porta estava um homem idoso que dava pelo nome Filémon acompanhado da sua velha mulher Báucis. Os deuses aproximaram-se. "Que quereis?" "Somos pobres andarilhos e necessitamos de um lugar onde descansar da viagem" "Entrem, meus amigos, entrem! Entrem se estais cansados da viagem!" Imediatamente puseram a mesa e colocaram todas as iguarias que havia na mesa. Báucis lavou os pés aos visitantes e cobriu-os com roupas novas, como se de reis se tratassem. Hermes e Zeus entreolharam-se, sorrindo. Afinal sempre havia almas benfazejas na Terra.
Por entre histórias e risos jantaram o pobre mas saboroso jantar preparado por Báucis naquela noite. Até que, como se Hermes continuasse com sede e pedisse mais leite, a velha senhora deu conta que já não havia mais que beber. Assim, muito triste, deu a notícia aos visitantes. "Meus senhores, peço desculpa, as já não há mais leite no cântaro." "Minha senhora, não sabemos, talvez ainda haja uma pequena gotinha que valha a pena beber." Para convencer os visitantes, Báucis inclinou o cântaro... e qual não foi o seu espanto quando dele jorrou leite que nunca mais acabava! "Filémon, Filémon! Estão deuses na nossa casa!" E prostraram-se aos pés de Zeus, que os mandou levantar, dizendo "Sim, somos deuses, Zeus e Hermes que, numa visita à Terra, não encontrámos ninguém de valor até chegarmos à vossa humilde casa. Provaram que a humanidade pode ainda ser prestável, humilde e boa e, como presente, dou-vos o direito de me pedirdes um desejo." Filémon e Báucis entreolharam-se: ambos sabiam o que lhes apoquentava o coração fazia muito tempo. Assim, Filémon tomou a palavra. "Rei dos deuses, nada mais te pedimos a não ser que nenhum de nós morra antes do outro. Pedimos-te, por favor, para que morramos no mesmo dia e não tenhamos que sofrer da ausência." "Assim será." proclamaram os deuses e desapareceram...
... Muitos anos se passaram desde a visita de Hermes e Zeus à Terra. E uma tarde, igual àquela tarde em que apareceram os dois viajantes, estando Filémon e Báucis abraçados no banco à entrada da modesta casa, sentiram que subitamente os seus corpos mudavam, que as suas pernas se tornavam raízes e os braços, ramos. Olharam-se, assim, uma última vez. "Filémon!" "Báucis!" "Adeus!" "Adeus..."...
Hoje, quem dá com a velha casinha modesta dos velhos Filémon e Báucis, pode ver duas grandes árvores verdes e frescas à porta. A sua sombra ainda hoje abriga do Sol aqueles que passam e o roçar das suas folhas, embaladas pelo vento que passa, ainda dão a impressão de dizer "Entrem, meus amigos, entrem! Entrem se estais cansados da viagem..."...

segunda-feira, 18 de julho de 2011

TRATADO DA POLÍTICA, por Aristóteles

O presente livro que vos apresento é da autoria de Aristóteles, que é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos. Inicialmente discípulo de Platão, cedo se afastou do caminho do mestre e do seu mundo das ideias para procurar a verdade  na matéria das coisas. 
A obra "Tratado da Política" é uma das obras mais geniais de Aristóteles; nela, não apresenta apenas a realidade do sistema político da altura como apresenta as suas próprias ideias políticas, para não falar de que lança as bases do nosso Direito Constitucional, daí julgar ser uma obra de extrema importância para os alunos de Direito que, a meu ver, deveriam questionar mais as razões da nossa ideologia e organização ao invés de as seguir simplesmente porque são e sem saber por que o são.
A propósito desta obra (e para meu proveito pessoal) criei um blogue a resumir cada capítulo da obra que actualizarei uma vez por dia com um capítulo. Todos os interessados podem aceder-lhe livremente :) Contudo relembro que isso não substitui a leitura original.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

PELÓPIDAS E A SUPREMACIA DE TEBAS, por Plutarco

Plutarco foi um filósofo e prosador grego do período greco-romano. A sua ética baseia-se na convicção de que para alcançar a felicidade e a paz, é preciso controlar os impulsos das paixões e destacou-se por estudar a inteligência dos animais, comparando-a à dos humanos. Escreveu mais que duzentos livros, sendo que só chegaram até nós cerca de cinquenta biografias de gregos e romanos célebres, bem como cerca de uma dezena de obras sobre vários assuntos. "Pelópidas e a supremacia de Tebas" é uma dessas biografias. Neste livro, Plutarco narra (de uma forma romanceada, confesso, mas desse género de narrações históricas hoje é o que mais há .--') as aventuras do general tebano Pelópidas e do seu melhor amigo Epaminondas contra os Lacedemónios , povo guerreiro e belicoso por natureza, contra Alexandre, rei tirano da Macedónia e de como conseguiu elevar a sua cidade natal, Tebas, acima de Esparta.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

DO RISO E DA LOUCURA, por Hipócrates

Hoje apresento uma obra simplesmente hilariante e que muito gozo me deu ler. O autor é Hipócrates, considerado por muitos o pai da medicina, sendo uma das suas citações mais famosas a definição do cérebro humano como " fonte do nosso prazer, alegria, riso e diversão, assim como do nosso pesar, dor, ansiedade e lágrimas. É especificamente o órgão que nos habilita a pensar, ver e ouvir, a distinguir o feio do belo, o mau do bom, o prazer do desprazer. É o cérebro também que é a sede da loucura e do delírio, dos medos e sustos que nos tomam, muitas vezes à noite, mas às vezes também de dia; é onde jaz a causa da insónia e do sonambulismo, dos pensamentos que não ocorrerão, deveres esquecidos e excentricidades". Esta afirmação contrariou a crença da altura, que era a de que todas estas faculdades pertenciam à alma, sendo que esta se encontraria na medula. 
Tudo começou com uma carta dom povo de Abdera a Hipócrates relatando o aparente estado de loucura do seu grande sábio, Demócrito; com isto preocupavam-se os abderitas pois a grandeza da cidade residia no facto de ser pátria de um dos homens mais sábios da altura. Manchada a reputação do sábio também se mancharia a da cidade. Acontecia que Demócrito se encontrava num estado de riso compulsivo: tudo servia de motivo para o seu riso, tanto as coisas boas como as más e o riso perante o infortúnio, ou mostraria pobreza de espírito, ou loucura e nada mais fazia senão rir. Hipócrates respondeu com a resposta de que procuraria procurar a causa da loucura de Demócrito e curá-la; contudo, não aceitou qualquer tipo de pagamento, afirmando que "aqueles que recebem pagamento, subjugando as ciências aos seus interesses, privando-as da sua antiga liberdade, parecem reduzi-las à escravatura; são bem capazes de mentir, exagerando a importância da doença. ou de negar a sua gravidade, de não comparecer, tendo assegurado a sua presença e de não vir ainda que tenham sido chamados." Mais tarde escreveu a Filopemen, agradecendo a sua hospitalidade em Abdera e apressa-se também a escrever a seu amigo Dionísio pedindo-lhe que cuide dos seus bens e da sua esposa enquanto estiver fora. Uma vez em Abdera, Hipócrates tem um sonho durante a noite: nele vê uma mulher muito elegante que o conduz até à cidade onde desaparece, dando lugar a outra mulher ainda mais bela mas com menos juízo. Hipócrates, numa análise feita ao seu sonho, conclui que a primeira mulher era a Verdade e a segunda a Opinião, que a Verdade era o que ele iria descobrir e a Opinião era o senso comum dos abderitas desprovido de qualquer teor científico. Assim, no dia seguinte, dirigiu-se à habitação de Demócrito: uma casa no cimo de uma colina e não muito grande. Demócrito encontrava-se debaixo de umas árvores; a seus pés tinha vários animais esventrados e, ante as expressões de tristeza e de horror dos abderitas que conduziram Hipócrates, o sábio desatou a rir às gargalhadas. O que se segue é um diálogo entre o médico e o filósofo no qual Hipócrates tentará apurar a razão da aparente loucura de Demócrito chegando, no fim, à conclusão de que o riso e a loucura não se encontram tão ligados como parecia...

quarta-feira, 29 de junho de 2011

FÁBULAS, por Esopo

Hoje tenho um pequeno presentinho como sugestão de leitura.
Sei que todos já leram o título, pelo que creio que já perceberam do que se trata. Exactamente, um momento de retorno à infância com algumas das histórias que nos contavam já em crianças: as fábulas de Esopo. E o que é uma fábula? Nada mais é que uma narração curta na qual as personagens são animais que possuem características humanas e que possuem quase sempre uma moral. Claro está que isto de "fábulas de Esopo" é uma designação errada; enganaram-nos aqueles que nos disseram que este senhor foi o autor de muitas das fábulas que nos contaram. Na verdade, foi apenas o seu colector, sendo que as histórias eram de civilizações tão díspares como sendo o Antigo Egipto, a Antiga Grécia e mesmo de origem asiática.
Mas quem foi este Esopo? Um mero escravo de Idamon, um cidadão grego que, após a sua libertação, foi viver para a corte do rei Creso onde entrou em contacto com vários sábios, entre os quais Sólon, que tinha um primo, Pisístrato, que era um tirano governador de Atenas. Como é óbvio, cedo o ardor democrático grego se insurgiu contra a tirania e os atenienses teriam deposto Pisístrato, não fora a interferência de Esopo que convenceu os atenienses a manterem o governante contando uma simples fábula: "As rãs que queriam ter um rei". Contudo, esta fábula foi tão convincente, bem como a maneira como foi narrada, que os atenienses logo esqueceram a democracia e voltaram a subjugar-se à tirania do governante. Mais tarde Esopo teria uma morte violenta, sendo atirado de um penhasco pelo povo de Delfos. Desconhece-se a razão desta fúria popular: uns dizem que foi o seu sarcasmo que enfureceu o povo; outros que tinha roubado uma taça de prata; e ainda há os que dizem que se apropriou de dinheiros que o rei Creso lhe confiara. Seja como for, do ponto de vista pessoal e pelo que li das Fábulas, creio que o motivo da sua execução foi a ideologia de Esopo: efectivamente, poderemos nós considerar bom um homem que subjuga um povo à tirania e que a apoia? Para mais, se há a hipótese de ter andado a roubar seja de quem fosse a adicionar à característica de apoiante da ditadura, meus caros, com todo o respeito que tenho pelo homem, mas não devia ser propriamente uma jóia de pessoa... Mas isto é só o que eu julgo, sabe-se lá o que teria feito de desagradável para levar o povo à fúria...
Neste livro estão reunidas as cem mais famosas fábulas de Esopo (que não são de todo de Esopo, como já referi acima). Muitas das fábulas presentes já as tinha ouvido na minha infância, nunca por Esopo, mas sim por La Fontaine, que muito bem as reescreveu em verso. Uma característica deste livro (que tanto pode ser boa como má) é o facto de no fim de cada fábula vir um parágrafo a explicitar a moral da história. É assim, acho bem que se apoiem os espíritos mais confusos na interpretação de alegorias (porque as fábulas são isso mesmo); contudo, também acredito que cada pessoa encontra a sua própria moral mediante as suas experiências de vida e, portanto, não nos deve ser imposta uma moral universal. Aliás, para ser sincera, eu não concordei com a maior parte das morais que li e sugeriria outras, mas lá está, cada qual mediante as suas experiências e a sua sensibilidade fica pontos diferentes da mesma história e, portanto, conclusões diferentes. Contudo, não deixa de ser interessante ouvir a opinião moralista expressa no livro e comparar com a nossa, acaba por ser um exercício bastante interessante para estas férias.
Uma última coisa: peço desculpa se não encontrarem a edição destas Fábulas apesar da capa que apresento: com efeito, comprei este livro num alfarrabista no Porto e quase de certeza que a versão ou a edição já serão diferentes; aliás, durante um tempo vou passar a ir a alfarrabistas, os livros acabam por se tornar dispendiosos, pelo que devem deixar de se fiar na capa que apresento a ilustrar as apresentações.
Assim, fica a sugestão de um bom livro para férias, divertido, leve e, ao mesmo tempo, intelectual. Se ainda não está em férias, coragem, que não deve faltar muito. Felizmente as minhas começaram esta semana e posso gozar o descanso merecido após o meu primeiro ano de faculdade... eu, pelo menos... Já a cabeça e o  blogue não tiram férias nunca!
Boas férias para todos!
(já agora, passem pelos anexos, que acrescentei um vídeo referente a esta apresentação)

terça-feira, 28 de junho de 2011

PROMETEU AGRILHOADO, por Ésquilo

Boa noite.
Hoje apresento a segunda tragédia de Ésquilo que li: chama-se "Prometeu Agrilhoado" e o tema foi visto e revisto por tantos autores que, creio, tema igualado em tratamento só mesmo o mito de Orfeu! Não é muito difícil de encontrar uma peça dramática com este título ao longo dos séculos, contudo é da de Ésquilo que hoje se trata. 
Sucintamente, Prometeu foi um Titã que desde sempre se pôs do lado da Humanidade, frequentemente vítima de Zeus que não lhe conferia valor. Foi graças a Prometeu que os humanos descobriram a cura para as doenças, a esperança face à morte, aprenderam a ler e escrever e dominaram o fogo, que Prometeu roubou dos deuses para que possibilitasse ao Homem a criação de vários ofícios, tais como a cerâmica. Assim, pouco a pouco, os homens deixaram de depender totalmente nos deuses e começaram a solucionar os seus próprios problemas. Enfurecido, Zeus manda agrilhoar Prometeu a uma rocha no monte Cáucaso como castigo pela sua insolência; contudo, manda Hermes ao seu encontro para lhe dizer que seria perdoado caso se arrependesse. Prometeu, que nunca se deixou subjugar à tirania de Zeus e sempre fez o que lhe mandou a vontade e os seus valores pessoais, recusa e diz a Hermes que prefere uma eternidade agrilhoado a ser um lacaio como ele, conseguindo a agravante de uma águia todos os dias lhe comer o fígado, que voltaria a nascer durante a noite, para toda a eternidade (tal que não aconteceu, visto que mais tarde Prometeu seria liberto por Héracles).
A peça dramática de Ésquilo, como é óbvio, não trata todo o mito, mas sim o momento do agrilhoamento. Digo que é óbvio, pois apesar de terem sido duas leituras creio que estas já me fizeram chegar a uma conclusão: ao contrário de Sófocles e especialmente de Eurípides, Ésquilo tem a particularidade de não se preocupar em dramatizar uma história mas sim um momento, tanto que as suas peças acabam por ser mais um diálogo do que propriamente uma encenação de um episódio. O mito é abordado, sim, mas na boca de Prometeu, que o conta às Oceânides, filhas do titã Oceano, as únicas que se apiedaram da sua sorte, que respondem com graves lamentos. A violência do cenário é expressa pelo vocabulário usado pelas personagens. Já a meio da peça aparece Io, a ninfa transformada em vaca pelos ciúmes de Hera, que também se apieda de Prometeu; em compensação, Prometeu conta a Io aquilo que os deuses têm reservado para ela para maior castigo que a sua transformação. No fim desta peça o leitor sai com a imagem de um grupo de deuses cruéis que, apesar dos seus inúmeros dotes e capacidades, nada fazem para defender os valores que lhes são atribuídos, o que torna esta peça reaccionária do ponto de vista religioso; mas não apenas este ponto de vista, se não também o político: a atitude de Prometeu é tipicamente libertadora apesar dos seus grilhões, preso a uma rocha, mas livre enquanto ser por não se subjugar à tirania e enaltecendo os valores da liberdade acima das penas do corpo. O simbolismo de Prometeu tornou-se tal ao longo dos séculos que chegou a ser adoptado pelo Cristianismo: assim, a Prometeu equiparou-se Jesus Cristo, um agrilhoado numa rocha, outro crucificado; a Prometeu uma águia esventrava-lhe o fígado e a Jesus Cristo um centurião romano abria o peito com uma lança; em ambos a sua missão era libertar a Humanidade e zelar pelo seu bem. Esta adaptação cristã do mito de Prometeu foi uma das razões da sua popularidade na época moderna até aos nossos dias, numa época em que a religião se encontrava intimamente ligada aos assuntos do Estado. Assim, mais que tudo, Prometeu simboliza o Homem que tem a coragem de se afirmar pelos seus valores e que fala pelos que não a têm, lutando pelas grandes causas.

sábado, 25 de junho de 2011

ANFITRIÃO, por Plauto

E eis-me chegada ao vigésimo livro.
A celebrar esta chegada comemorativa bem que poderia ter-me aparecido nas prateleiras algum de maior conteúdo; e com isto começo a sentir o peso de ter que fazer uma apresentação menos boa... Isto porque a obra em sim também tem um carácter "menos bom", se é que me faço entender...
A presente obra, para variar, pensei eu, é uma comédia. Eu não tenho nada contra comédias, aliás, admiro o sentido de humor, desde que este seja inteligente e elegante, humor esse que Plauto, enquanto pertencente à frívola sociedade romana, não conheceu, imagino eu... Confesso que se me mostrou custosa a tarefa de passar o primeiro acto do livro; não porque o autor não tenha sentido de humor, até tem bastante, mas tem aquele que eu chamo de humor para tolos: gente à pancada e linguagem imprópria e deselegante com recurso a calão, sendo que as personagens não primam pela esperteza. Mas passo a fazer uma sinopse do argumento.
Como é sabido Júpiter (tenho que dar os nomes romanos dos deuses porque o autor é romano) era um marido infiel e costumava arranjar múltiplas amantes, fossem deusas ou mortais, qualquer boa cara lhe servia. Ora aconteceu que se apaixonou por Alcmena (sim, aquela que iria ser a mãe de Hércules) e quis unir-se a ela. Então, aproveitando a ida do seu marido Anfitrião para a guerra com o seu escravo Sósia, chamou o seu filho Mercúrio e ambos transfiguraram-se em Anfitrião e Sósia, respectivamente, fazendo com que a pobre Alcmena (dolosa vítima nesta trama toda) traísse o marido sem saber. No entanto, os deuses (que é suposto, enquanto divindades, serem um modelo a imitar pelos mortais, não é... nota-se...), vendo que o verdadeiro Anfitrião e o verdadeiro Sósia voltavam, decidiram divertir-se mais um bocado e provocar a confusão, valendo-se da duplicação que haviam feito. Assim, a história é composta por uma pobre Alcmena fiel e casta que se vê acusada de louca e de traição, um Sósia pouco inteligente, um Anfitrião que ainda assim é a personagem mais normal (menos mal), um Júpiter lascivo e inconsequente e um Mercúrio (deus que eu até tinha em boa conta pela sua inteligência) a resolver os assuntos à pancada. 
É assim, eu não me sinto mesmo nada bem neste papel de "despublicitar" mas, ao mesmo tempo, não poderia afirmar ser uma obra que me maravilhou se o não foi, pelo contrário. Mas isto é a minha opinião, que não aprecio este género de humor. Claro está que outra pessoa qualquer pode achar esta obra fantástica e divertidíssima, acredito que sim, até porque a nossa sociedade está impregnada de humor neste estilo (ou não fôssemos nós os herdeiros dos romanos, não é...); contudo, para ser fiel aos propósitos pelos quais criei este blogue, vejo-me obrigada a dar a minha opinião segundo a minha experiência de leitura que, precisamente por ser de índole pessoal, espero que não levem como totalmente certa. Desagrada-me a mim, pode agradar-vos a vocês, ou até podemos concordar...
Melhor maneira de descobrir: lendo. Até porque  ler não é apenas descobrir um pouco mais sobre o que nos rodeia, mas também sobre nós próprios... neste caso poderíamos descobrir que género de humor nos agrada , eventualmente. Mas tenho que ver, ao menos, algo positivo no meio disto tudo: no fim, acabei por perceber por que é que o conceito "sósia", em português, se aplica a uma réplica física de alguém (reler sinopse acima)... Vêem? No fim, tudo tem alguma utilidade!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

DIÁLOGOS IV, por Platão

Boa noite a todos.
Antes de mais, agradeço às pessoas que comentaram o meu blogue nos último dias; não sei quem são nem se terão também um cantinho que eu possa visitar nesta vasta blogosfera uma vez que se identificaram como anónimos, mas agradeço imenso, pois fez-me sentir que afinal este trabalho, ainda que prazeroso, também tem alguma relevância. Em segundo lugar. peço desculpa pela demora em apresentar este novo livro, mas o final do ano na faculdade consegue ser bastante exaustivo; assim, entre demoras e mais demoras, entre "ok, hoje não deu, publico amanhã" e "ok, hoje voltou a não dar". Depois de um percurso mental um pouco atribulado finalmente chegou aqui e é o quarto livro de Diálogos de Platão.
Esta obra é composta pelos diálogos "Sofista", "Político", "Filebo", "Timeu" e "Crítias", sendo que os últimos dois são mos mais conhecidos devido às redacções que dele fazem parte sobre o mito/realidade (nestas coisas não podemos ser dogmáticos) da Atlântida. No "Sofista" Sócrates trava conhecimento com um filósofo da escola de Eleia e inicia um diálogo no qual pretende que o estrangeiro lhe diga o que entende por um sofista na terra de onde vem; é de notar que na Antiga Grécia o termo "sofista", ainda que tenha etimologicamente origem na palavra "sábio", "sophos", o certo é que se for tornando gradualmente num termo depreciativo e que ainda assim é nos dias de hoje, cujo significado negativo prevaleceu: o de uma pessoa que conduz as mentes dos outros com uma brilhante arte de retórica, ainda que esta careça de lógica ou verdade (assim, o Sofista para Sócrates é qual um caçador, mas um caçador de homens). Assim, como não podia deixar de ser, no mesmo dia efectuou-se o diálogo do "Político" (não fossem os políticos, geralmente, todos sofistas no sentido depreciativo). No terceiro diálogo, "Filebo", narra-se uma discussão entre Sócrates e Filebo sobre qual o fundamento da vida humana: Filebo defende o prazer; Sócrates defende a sabedoria e a inteligência. Chegados ao "Timeu" constatamos que este é apenas um diálogo introdutório àquele que iria gerar uma das maiores controvérsias da Humanidade: a verdadeira existência ou a possibilidade de mito que é a história da Atlântida; após uma breve alusão à ilha perdida, é abordado o processo de criação do Homem e a formação do Mundo, bem como das almas. Terminada essa narração primordial, finalmente estão reunidas as condições para se iniciar o quinto e mais famoso diálogo, "Crítias", que deverá ser o expositor da história que levou tantas vezes o Homem à fantasia. Infelizmente (e para grande desconsolo o meu) Platão não acabou o diálogo, tanto que o livro, após ter descrito a cidade perdida e assim que ia entrar na sua destruição, termina com as seguintes palavras: "e tendo-os reunido, disse-lhes..." (Zeus havia reunido os vários deuses do Olimpo para julgar a população atlante). Não se conhecem os motivos que levaram Platão a deixar o diálogo incompleto: uns julgam ter sido pela morte do autor embora não haja certezas, pois a data do manuscrito não é certa; outros defendem que a história da Atlântida e da sua guerra com Atenas não era mais que uma alegoria de uma guerra real, travada entre atenienses e persas, na altura civilização muito rica e culta; assim, Platão teria perdido o interesse em  escrever como se fora um mito e ter iniciado antes a sua última obra, as "Leis", na qual retrata a sociedade ideal, que a Atlântida também simbolizava. Seja como for, nunca saberemos ao certo e, ainda que sejamos mais ou menos cépticos, o certo é que a história de uma civilização perdida vulgarmente conhecida como Atlântida povoa um pouco todas as mentes humanas  simplesmente pelo mistério que teria sido o seu desaparecimento.
(ver Biblionet - anexos)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

MEDEIA, por Eurípides

Já passou, de facto, algum tempo desde que apresentei a última obra dramática ("Antígona", se bem me lembro). Hoje reavivarei o autor Eurípides com a apresentação de uma das suas obras mais conhecidas e que influenciaram diversos autores ao longo dos tempos: "Medeia".
Esta tragédia narra a história da feiticeira Medeia, sobrinha de Circe e filha do rei Aetes, que abandona o seu reino e mata o seu próprio irmão para seguir Jasão de volta para Corinto, após o ter ajudado a conseguir o velocino de ouro com a sua magia. Uma vez lá casam-se e têm dois filhos. Contudo, a felicidade de Medeia é de pouca dura: Jasão não tardou em rechaçar Medeia para se casar com a filha do rei de Corinto sob o pretexto de, com isso, conseguir honra e glória, não se importando sequer em exilá-la a ela e aos seus dois filhos de Corinto. Medeia, ultrajada e sem ter para onde ir (uma vez que se tornara divorciada, na altura condição humilhante para uma mulher, expulsa da terra do marido, com dois filhos e sem poder regressar ao seu reino, que traiu) arquitecta uma vingança graças às suas magias que firam o coração de Jasão e o arrastem de volta para uma vida inglória, da qual nunca teria saído se não fora ela.
Mais uma vez, numa tragédia de Eurípides, damo-nos conta que não há uma personagem inteiramente boa nem inteiramente má: apenas humanidade. Se inicialmente nos condoemos e revoltamos contra Jasão pela sua má conduta, no final o seu sofrimento e a maldade de Medeia fazem-nos ficar indecisos sobre que partido tomar; e damo-nos conta que talvez nenhum tenha estado certo. Nas tragédias de Eurípides é impossível tomar partidos que possamos afirmar como justos. Outro ponto importante e que chama logo a atenção do leitor, quer pelas acções, quer pelo próprio discurso de Medeia, é um enaltecimento da figura feminina, pois a mesma é culta, desmente o velho mito de que as mulheres não têm motivos de queixa por estarem sempre na segurança da casa e de serem capazes de conseguir ardis mais violentos que os homens para compensar a sua falta de força física.
A tragédia "Medeia" é, sem dúvida, um clássico: imensos autores ao longo da História da literatura e mesmo do cinema se empenharam em recriar a lenda desta mulher tão cheia de bem e de mal, com uma faceta boa e diabólica ao mesmo tempo. Contudo a obra de Eurípides é a primeira de uma série de tragédias do mesmo assunto a ser escrita posteriormente, sendo, por isso, a obra original e primeira a retratar o episódio da vida desta mulher, tão doce como o Paraíso e tão áspera como o Inferno.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O BANQUETE, por Platão

Antes de mais, peço desculpa pela imagem; é sabido que coloco sempre a ilustrar a capa do livro que li para ser fiel aos leitores, até porque cada edição/versão tem as suas discrepâncias. Desta vez tal não me foi possível, ou melhor, mais ou menos: a editora é a mesma do livro representado na imagem, mas a versão é actualizada. Fica aqui, então, a ficha: é das edições Europa-América, colecção Grandes Obras e está em formato livro de bolso. Possui o texto integral. Devo também dizer que este diálogo apresentado por Platão espantou-me num aspecto: sem nunca perder a seriedade, mostrou uma faceta muito mais humorística e leve do grande pensador, havendo momentos que nos fazem esboçar o leve sorriso ou mesmo uma risada leve. Isto porque a acção passa-se num ambiente talvez um pouco boémio, como sendo um jantar com todas as suas diversões.
O poeta Agatão ofereceu um banquete: a ele acudiram Alcibíades, o médico Erixímaco, o autor de comédias Aristófanes (sem dúvida o mais espirituoso do banquete), Fedro (jovem amigo de Sócrates e seu discípulo) e, como não podia deixar de ser, o filósofo Sócrates que, como bem Apolodoro (o narrador do evento) soube referir, para espanto de todos, se apresentou de sandálias, uma vez que um dos seus traços característicos era o de andar sempre descalço.Como seria de prever, com tal elenco o objectivo do banquete não seria apenas o de uma comezaina bem temperada e farta: Agatão pretendia iniciar um debate que tivesse como objecto o amor. Assim, um a um, cada um dos convidados (incluindo o anfitrião) dá a sua explicação e a sua imagem pessoal do amor. No fim, ficamos com um amor analisado por um poeta, um comediante, um médico e um filósofo, que mostram a sua interpretação do amor, obviamente sempre à luz da sua profissão (creio ser este o ponto mais interessante deste diálogo, as diferentes formas de ver um assunto por diferentes pessoas que vivem para diferentes coisas). No fim, a melhor defesa do amor é dada por Sócrates, segundo concordam todos os presentes e um dos convidados que não entrou no debate, Alcibíades, termina o diálogo com um magnífico elogio ao filósofo.
Este diálogo é, sem dúvida, de leitura obrigatória; falo por experiência própria, visto que alterou em mim algumas das ideias muitas vezes dogmáticas que eu tinha sobre o amor... e quem fala do amor fala de qualquer outro sentimento. Aliás, outro ponto interessante do diálogo é o facto de os convidados se tratarem entre si por "amantes"; isto porque o amor de que falam é algo mais que o amor entre homem e mulher, é um amor puro, o Eros na sua essência e enquanto deus primordial e que une os seres humanos nas mais diversas relações. Aqui está presente, portanto, o ideal platónico do amor. Nada mais tenho a acrescentar, termino esta apresentação com um excerto do discurso proferido por Aristófanes e que remonta à justificação dada pela cultura popular grega para a atracção entre homem e mulher e que julgo digna de atenção por ser bastante curiosa:
«A princípio havia três género entre os homens e não dois como hoje: o masculino, o feminino e um terceiro que era composto pelos outros dois. O seu nome subsistiu, mas a espécie desapareceu: então, o real andrógino reunia num único ser o princípio macho e o princípio fêmea. Cada homem tinha a forma de uma esfera, com as costas e as costelas em arco, quatro mãos, outras tantas pernas e duas faces ligadas a um pescoço arredondado; para essas duas faces opostas, um único crânio, mas quatro orelhas, as partes genitais duplicadas e tudo o resto que se pode imaginar sobre o mesmo modelo.O nosso homem podia passear por onde queria, em posição erecta; e, quando sentia a necessidade de correr, procedia como os nossos equilibristas que fazem a grande roda atirando as pernas para o ar e avançavam velozmente rolando. Se havia três géneros era porque o primeiro, o macho, era filho do Sol, o segundo, fêmea, filho da Terra e o terceiro, participante dos dois, da Lua, pois a Lua tem esta dupla participação.
«(...) Empreenderam subir até ao céu para atacar os divinos. Então, Zeus e os outros deuses deliberaram sobre o castigo a infligir-lhes. (...) Depois de uma penosa meditação, Zeus dá finalmente a sua opinião: 'Vou cortar cada um deles em dois, ficarão mais fracos e ao mesmo tempo, aumentando o seu número, ser-nos-ão mais úteis; dois membros bastar-lhes-ão para caminhar e, se reincidirem de novo na imprudência, cortá-los-ei de novo em dois, de modo que terão que andar a pé-coxinho.' (...) Uma vez realizada esta divisão da natureza primitiva eis que cada metade, desejando a outra, a procurava: e os pares, estendendo os braços, agarrando-se no desejo de se reunirem, morriam de fome e também de preguiça, pois não queriam fazer nada no estado de separação. (...) Compadecido, Zeus imagina então um meio: desloca os seus sexos e põe-nos para a frente, permitindo que se unam até ficarem saciados e poderem trabalhar e satisfazer as suas necessidades. (...) Cada um de nós é, portanto, a metade de uma peça, visto que nos cortaram em duas partes e cada um vai procurando a metade da sua peça.
«(...) Assim, quando os amantes descobriram precisamente a metade que é a sua, é admirável como são empolgados pela ternura, o sentimento de parentesco e o amor. Já não consentem em dividir-se um do outro e estes são os que ficam juntos até ao fim da vida e que nem conseguiriam definir o que esperam um do outro!» (in "O Banquete", texto com supressões)

sábado, 11 de junho de 2011

FÉDON, por Platão

"O diálogo sobre o dia da morte de Sócrates versa a alegria de um homem justo perante a morte e constitui o tema deste escrito fundamental de Platão acerca da Imortalidade da Alma." Sem dúvida uma obra a ler após as leituras da "Apologia de Sócrates" (defesa de Sócrates em tribunal ateniense) e "Críton" (tentativa de persuasão do discípulo Críton para que Sócrates fugisse da prisão) segue-se "Fédon", na qual a acção passa-se já após a execução de Sócrates com cicuta. Todo o texto é uma narração muitas vezes em discurso indirecto que o discípulo Fédon (que também esteve presente no dia da execução) faz a Equécrates que, sabendo um mês depois a morte do sábio, pede que alguém lhe conte o que se passara nos derradeiros momentos antes da execução.
Na descrição da execução propriamente dita estão presentes Sócrates, Fédon, Apolodoro, Cebes, Símias e Críton. Para os descansar do seu pranto, Sócrates mostra-se calmo e sorridente e inicia um debate com eles sobre os motivos que o levam a ir em paz e pelos quais não devem chorar, sendo um deles a imortalidade da alma. Não convencidos de algo que até nos dias de hoje não está comprovado, os discípulos não conseguem animar-se e contestam Sócrates, dizendo que a sua crença é a de um louco e que nem parecia dele, por ser tão pouco razoável. Assim, inicia-se um debate no qual Sócrates, fazendo apenas uso da razão e da lógica, comprova aos discípulos que a alma é transcendente ao corpo, sendo por isso imortal e chega ao ponto de tentar comprovar racionalmente que há uma vida além morte junto dos deuses.
A quem leia este livro advirto que não leia segundo os seus olhos ou crenças ou se exalte e o proclame como livro a ser evitado pela possibilidade de corromper crenças. Afianço que, de facto, os argumentos expostos por Sócrates têm lógica, contudo todos com base em ideias pré-estabelecidas pela sociedade e com as nossas crenças também acontece o mesmo: argumentamos com lógica mas a partir de dogmas ou ideias que nos foram implementadas pela educação. Faço esta advertência porque sei o quão perigosa pode ser a discussão de assuntos desta espécie e lembro que o que está em causa não é se Sócrates estará ou não correcto, mas sim a clareza do discurso e uma nova opinião... e novas opiniões contribuem sempre para espíritos mais abertos quando bem recebidas.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A MITOLOGIA GREGA, por Pierre Grimal

Desde sempre o Homem sentiu necessidade de explicar as origens da realidade que o rodeia, criando mitos e, por conseguinte, a sua própria mitologia. A mitologia pode tomar várias vertentes. Há culturas que possuem uma mitologia baseada no homem heróico, como é o caso da mitologia celta e do homem com força sobre-huma Chuchulainn, equiparável ao Héracles grego; outras apostam numa vertente mais espiritual, como a mitologia indiana, sendo que os homens são deuses encarnados. Contudo, o espantoso da mitologia grega é o facto de conseguir reunir tanto o carácter humano como espiritual, com aventuras de deuses que passaram por privaçõe semelhantes às humanas e humanos que chegaram a alcançar a deificação.
Acho importante, após ter apresentado todas as obras anteriores, recomendar um livro de mitologia grega da mesma forma que já recomendei livros de arte; isto porque para percebermos um pensamento ou uma cultura temos que perceber o seu contexto. Para mais, em inúmeras obras de escritores greco-latinos aparecem com frequência referências a episódios mitológicos como alegoria a situações e convém que estejamos minimamente informados a fim de percebermos grande parte das mensagens contidas nos texos. O estudo da mitologia também é importante para a compreensão de determinadas atitudes de uma população, pois quase sempre têm fundos religiosos (e que diremos nós das nossas atitudes também baseadas nos fundamentos do Cristianismo?)
Obviamente que um mito tem precisamente essa designação porque não é de todo real; contudo, acredito que tenha sempre um fundamento real. Se lermos, para além da mitologia grega, leituras referentes a outras mitologias, encontraremos decerto episódios semelhantes com personagens diferentes, inclusive na própria Bíblia (por exemplo, já li a história do dilúvio pelo menos em quatro mitologias mais a Bíblia cristã). Assim, compreender a mitologia de outros povos acaba por ser compreender em parte das nossas crenças e dar-nos um espírito mais aberto e crítico num assunto tão controverso quanto o da religião.