quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O MESTRE, por Santo Agostinho

Sim, eu sei. Parece ser algo totalmente novo, mas efectivamente eu comprometi-me a apresentar os legados da base da cultura ocidental, que é a grega, a latina... e a cristã. Confesso que demorei bastante tempo a pegar neste último pilar mas isso deveu-se ao facto de os livros que lhe são relacionados serem exponencialmente mais caros que os restantes. Digamos que finalmente me dei ao luxo (porque foi mesmo) de desembolsar mais um pouco (ou melhor, o mesmo, só que em vez de aplicar em dois livros só posso aplicar num, que  é que se há-de fazer)...
Fiquei triste, confesso... a sério, fiquei logo triste nas primeiras duas páginas. Apesar de depois não ter notado nada de gravoso e o livro ter melhorado bastante, confesso que as primeiras duas páginas me causaram má impressão, com o devido respeito pelo autor. Basicamente Santo Agostinho quer mostrar ao seu filho Adeodato que a linguagem não serve para aprender e sim para ensinar e faz uso de argumentos como o caso do professor que lecciona, as perguntas de resposta condicionada, etc e no fim Adeodato conclui que de facto a linguagem serve para ensinar e não para aprender... e o leitor fica de facto com uma dúvida pertinente que mais não é que a lógica das coisas: parece-nos óbvio que a linguagem enquanto meio de aprendizagem serve para transmitir conhecimento, tudo bem, mas quem o adquire (aprende) também o faz por intermédio da linguagem... usada pelo professor. Em lado nenhum Santo Agostinho especifica que é apenas a linguagem de quem profere que serve para ensinar e não aprender, afirma simplesmente que a linguagem (conceito generalista) serve para ensinar mas não para aprender. Se se ensina com gestos o pupilo imitará os gestos e nesse caso os gestos servem para aprender mas se o mestre dá a informação o pupilo aprende pela linguagem do mestre... A linguagem serve para aprender, no mestre porque é codificada e transmitida, no pupilo porque a descodifica. Ai, senhor Agostinho, a cometer falácias/suprimir informação para levar a sua avante (confesso que foi essa a primeira ideia que me veio ao espírito)! Salvo isso, todo o resto do livro se me revelou impecável... foi mesmo o choque inicial, se me permitem dizê-lo. De resto o livro é excepcional.
Santo Agostinho recorre ao método socrático para ensinar o seu pupilo, que aqui é o seu filho Adeodato, ou seja, para quem leu os diálogos de Platão sabe que Sócrates ensinava recorrendo ao método de pergunta e resposta, o mestre pergunta, o pupilo responde sucessivamente até chegar pelas suas próprias respostas à ideia que o mestre defende (quase como uma aprendizagem orientada). O objectivo deste diálogo é demonstrar que não são as palavras que conduzem à verdade, que reside no interior do Homem; defende também que a razão é essencial e nunca um homem se deve guiar unicamente pela razão ou pela fé e que ambas devem coabitar no espírito humano. O livro consta  de catorze capítulos e tem duas partes: uma primeira sobre as palavras e os signos e a segunda sobre despertar a verdade interior, no fundo uma primeira baseada na razão e a segunda na fé, sendo que os capítulos que as compõem são o caminho conseguido através da lógica argumentativa para se chegar ao que Santo Agostinho defende no último capítulo.
Assim, este "diálogo entre Pai e Filho sobre a Linguagem e a descoberta da Verdade interior" de Santo Agostinho surge, no final, como um texto importante independentemente de qualquer convicção religiosa mas sim pela sua qualidade e carácter filosófico que aborda temas aparentemente tão díspares como a Linguística, Comunicação e Religião, sendo mais um testemunho da riqueza que os antigos legaram ao presente.

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